quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Cinema-denúncia numa verdade filmada

A exploração sexual e conseqüente prostituição infantil é crime. Isso o já mundo sabe. Mas em alguns casos por todo o Brasil não existe denúncia ou ação que dê jeito. E o que acontece diariamente é exposto nesse novo Anjos do Sol, produção brasileira e estréia do gaúcho Rudi Lagemann em longas.

No início tomamos logo um tapa na cara: aliciador (Chico Diaz, nojentamente perfeito) chega numa aldeia de pescadores para levar menininhas para trabalhar. Um casal tenta vender filha mais velha, mas como está com piolhos, joga Maria (Fernanda Carvalho) de apenas 12 anos na negociação. Detalhe: eles supõem que ela irá trabalhar para famílias em outro estado. Transportadas às escondidas e como carga, Maria se junta a outras mercadorias, meninas assim como ela, prestes a serem mais uma vez colocadas à venda.

Agora vem o soco no estômago: repassadas para uma madame (Vera Holtz), elas serão tratadas para irem a leilão, compradas por poderosos, políticos e fazendeiros. Aí tome, bebidas goela abaixo, estupro, violência e prostituição. E acreditem, ainda fica pior.

Funcionando incisivamente como denúncia o filme é perfeito, cruel e real, fazendo uso de cenas fortes e de apelo social, mas dramaticamente a estória escorrega um pouco, tentando fazer com que o espectador torça para que algo de positivo aconteça as protagonistas. Mas temos que lembrar que todo o tema abordado pelo filme infelizmente acontece com maior ou menor gravidade no nosso país, naturalmente.


O elenco infantil está bem calibrado, com uma dose de inocência permeando os olhares e atitudes das meninas, apesar do clima pesado atingido pelo filme. Os veteranos Vera Holtz e Chico Diaz estão ótimos, mas é impossível não ficar enojado (no bom sentido) com as atuações fantásticas de Otávio Augusto e de Antônio Calloni, esse sim, o dono do filme, simplesmente genial.

A ferida está aberta, e o que o diretor pretende com o filme é alertar para algo que já sabemos, mas que parecemos não nos importar. E o que Lagemann coloca na tela implora para ser discutido e denunciado, assim como todo problema social no Brasil.

Deve ser muito dolorido para uma mãe assistir ao filme e inevitavelmente não pensar em suas filhas, mas ainda assim merece ser visto por todos pelo tema duro e real, como uma verdade filmada.

INFORMAÇÕES ESPECIAIS

Festival de Gramado: Anjos do Sol (dividindo com Serras da Desordem) levou o Kikito de Melhor Filme 34º Festival de Gramado. Ganharam também Antonio Calloni (ator), Otávio Augusto (coadjuvante), Mary Scheila (atriz coadjuvante.), roteiro e edição;

Festival de Miami: No Festival Internacional de Cinema de Miami, em março de 2006, Anjos do Sol ganhou pelo júri popular como melhor longa de ficção ibero-americano;

Elenco: Vera Holtz, Chico Diaz, Antônio Calonni e Otávio Augusto, participaram do filme pela causa, topando ganhar um cachê simbólico, não revelado;

Rudi Lagemann: diretor de Anjos do Sol, escreveu também o roteiro, fez a co-edição e produziu o longa.

> Originalmente publicado no site http://www.opovo.com.br/ (coluna Script), em 25/10/2006.

Trilha sonora nas caixetas: Se no meio do que você tá fazendo você pára, Arnaldo Antunes.

2 comentários:

Moni S. disse...

Eu já vi e revi várias vezes...acho que vou ver de novo agora.
Esse e "O céu de Suely" são lindamente dolorosos e verdadeiros.
Beijos.

Unknown disse...

Thanks for your visit